Análises

Jorge Heitor*: Por uma reformulação do PAIGC na Guiné-Bissau | Lusomonitor

Se a Guiné-Bissau fosse um país normal, estaria nesta altura a decorrer normalmente em Cacheu o VIII Congresso do PAIGC, cuja liderança é disputada por Aristides Ocante da Silva, Braima Camará, Carlos Gomes Júnior, Domingos Simões Pereira, José Mário Vaz e Vladimir Deuna.

No entanto, como a Guiné-Bissau não é de forma alguma um país normal, não estamos a receber boas notícias do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), criado oficialmente a 19 de Setembro de 1956, por pessoas como Amílcar e Luís Cabral, Aristides Pereira e Fernando Fortes.

Se a Guiné-Bissau fosse um país normal, com quase 40 anos de vida, estaria agora a ser governada pelo PAIGC e a ser presidida provavelmente pelo que é ainda o líder desse partido, Carlos Gomes Júnior, que neste último ano tem vivido exilado, porque um golpe de Estado deixou as eleições presidenciais a meio.

Enquanto Angola está a ser governada pelo MPLA, oficialmente formado alguns meses depois do PAIGC, a Guiné-Bissau encontra-se nas mãos de um conglomerado de militares e de traficantes que de forma alguma sabem ou querem saber o que seja a legalidade democrática.

“O Estado da Guiné-Bissau não conhece o seu lugar; é desorganizado e incompetente”, reconheceu recentemente um dos candidatos à liderança do PAIGC, José Mário Vaz, que já foi ministro das Finanças e depois do golpe do ano passado viajou para Portugal, como outros dos seus compatriotas.

O Estado guineense é desorganizado e incompetente porque nasceu torto, nunca tendo uma série de combatentes pela independência aceite a liderança de Amílcar Cabral, que acabaria por ser assassinado, devido ao ódio de certos negros aos cabo-verdianos.

Amílcar e Luís Cabral nunca conseguiram consolidar o sonho de uma Guiné e um Cabo Verde a caminharem juntos para a independência e o desenvolvimento. Essa foi apenas uma miragem dos dois irmãos e de poucas mais pessoas.

No dia 14 de Novembro de 1980 João Bernardo Vieira, “Nino”, afastou Luís Cabral da Presidência da Guiné-Bissau e deu o pontapé de saída para a completa ruptura entre os dois ramos do PAIGC, que de modo algum poderia continuar a ser o partido essencial de dois territórios tão diferentes como o são a Guiné e Cabo Verde.

Se o dito PAIGC desejasse agora ser verdadeiramente coerente com o que sempre tem sido a prática de muitos dos seus militantes, eliminaria de vez o nome de Cabo Verde da sua designação e passaria pura e simplesmente a ser o Partido Africano da Independência da Guiné-Bissau (PAIGB).

Tal como Aristides Pereira e Pedro Pires souberam tão bem, depois do golpe de “Nino”, criar o Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV), Carlos Gomes Júnior e os demais candidatos à liderança de um partido de nome errado deveriam ter a coragem de encetar agora um tempo inteiramente novo, muito mais promissor.

Uma vez que nem o dito PAIGC nem o Partido da Renovação Social (PRS) têm credibilidade suficiente para gerir a Guiné-Bissau, depois de tudo aquilo a que se tem assistido nos últimos anos, talvez um PAIGB significasse como que um começar de novo, um recomeço.

O povo da Guiné-Bissau necessita de passos arrojados; e de políticos que saibam colocar os militares no seu devido lugar, de servidores da República; para que não estejam permanentemente a interferir na vida do próprio país. Já se perdeu demasiado tempo para que continuemos a assistir a mais do mesmo.

Esta é uma mensagem de esperança, para que os guineenses se libertem definitivamente de pessoas como Bubo Na Tchuto, António Indjai, Papá Camará ou, até mesmo, Kumba Ialá.

 

*Jorge Heitor, que na adolescência tirou um Curso de Estudos Ultramarinos, trabalhou durante 25 anos em agência noticiosa e depois 21 no jornal PÚBLICO, tendo passado alguns períodos da sua vida em Moçambique, na Guiné-Bissau e em Angola. Também fez reportagens em Cabo Verde, em São Tomé e Príncipe, na África do Sul, na Zâmbia, na Nigéria e em Marrocos. Actualmente é colaborador da revista comboniana Além-Mar e da revista moçambicana Prestígio.

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Guinea-Bissau adrift, a year after the coup | ReliefWeb

Guinea-Bissau adrift, a year after the coup

REPORTfrom Agence France-Presse Published on 12 Apr 2013

by Allen Yero Embalo

BISSAU, April 12, 2013 (AFP) – The impoverished people of Guinea-Bissau had dared to hope that their difficult lives might improve after a military coup a year ago that handed power to a civilian transitional government.

Instead, the west African nation is stagnating under the rule of its all-powerful military, with drug trafficking on the rise, elections postponed indefinitely and the economy anaemic.

“I hope the political and military elites examine their conscience and realise that Guinea-Bissau runs a real risk of disappearing as a state,” former East Timor president Jose Ramos Horta, the UN representative in Bissau, said this week.

Taking stock of a transition year after the latest in a long line of coups that overthrew the regime of former premier Carlos Gomes Junior on April 12, Horta said the country’s public institutions were too weak to take on the might of the military in politics.

“Without a strong state and a strong government and political institutions, it will be extremely difficult for Guinea-Bissau to survive faced with regional challenges, with the threat of organised crime, including drugs cartels of diverse backgrounds and extreme poverty,” he said.

Coup leader Antonio Indjai, a former army chief of staff, agreed in May last year to hand power to a civilian transitional regime headed by President Manuel Serifo Nhamadjo, who was charged with holding elections within 12 months.

But on January 21 the president announced that a vote within such a tight timescale would be “technically impossible” and he announced an indefinite postponement.

Diplomats and observers in Bissau say divisions in both the army and within the political class, and especially the power of the military in decision-making, explain the delay.

Drugs have plagued the country

Instability in Guinea-Bissau, which gained independence from Portugal in 1974 after a war with its colonial power lasting more than ten years, is nothing new.

The country has suffered intermittent unrest since its liberation, as well as a series of military coups attributed largely to the unprecedented bloating of the army after the war.

The chronic volatility has fanned poverty in the country of 1.6 million people with few resources other than cashew nuts and fish, attracting South American drug cartels who have turned it into a hub of cocaine trafficking for west Africa.

The drug trade and the money it generates have in the end corrupted all of Guinea-Bissau’s public institutions and in particular the armed forces, whose senior officers are notoriously involved in trafficking.

Jose Americo Bubo Na Tchuto, a former chief of the navy, was arrested 10 days ago by US federal agents in international waters off west Africa with several accomplices as he was allegedly about to receive a large shipment of cocaine.

The officer, described as a “drug kingpin” by the United States for several years, was transferred to New York where he will stand trial.

His high-profile, dramatic arrest will not, however, paper over the relentless rise of cocaine trafficking from South America since last years coup, according to United Nations sources in Bissau.

“Political upheaval has severely damaged the fight against drug trafficking,” a report released at the end of last year by the UN’s anti-drug agency noted, highlighting the involvement of political leaders and military in trafficking.

Despite all these problems, the “obviously fatigued” international community must not abandon Guinea-Bissau, said Horta, who believes trafficking remains a “real danger” to its future.

After the coup, most of Guinea-Bissau’s partners, including the European Union, one of its largest donors, suspended aid donations.

The country is already ranked 175th out of 177 in a UN list of the poorest states in the world and more than 80 percent of its population lives on less than a dollar a day.

aye-stb/cs/ft/ric

© 1994-2013 Agence France-Presse

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Ditadura do Consenso O pão seco guarda-se para o mês de maio…

Análise de Fernando T. Politologo

Ao que parece, o mês de maio que vertiginosamente se aproxima, apresta-se a ser decisivo para o futuro politico da Guiné-Bissau. Tudo aponta que assim seja, pois as movimentações diplomaticas ao mais alto nivel que estão neste momento em curso, salvo algum revês ou mudança de percurso de ultima hora, assim deixam entender. Sabe-se que, movimentações diplomaticas de alta valência coordenadas pelo Brasil, estão a ser desenvolvidas com vista a concertação de estratégias e ao fortalecimento mutuo de esforços, que até então têm sido desenvolvidas separadamente ou de forma não coordenada, pela UA, CEDEAO e a CPLP no quadro da procura de uma solução para a crise guineense.

Pretende-se com isso alcançar, a concretização de uma « convergência de facto » que devera actuar nas três àreas decisivas da crise guineense, isto é, a questão institucional que implica o retorno da vigência democratica na sua plenitude, a questão da segurança que se prende com a estabilização do pais e a questão do desenvolvimento economico e social, sem o qual as duas outras agendas não poderão seguramente evoluir. E essa, pelo menos, a opinião sabia e recomendada de Antonio Patriota, Chefe da diplomacia Brasileira.

Mais se pretende, que essa concertação de estratégias seja levada a cabo sob a cobertura global da Organização das Nações Unidas (ONU). Isto é, o processo funcionara sob a tutela e caucionamento da ONU, saindo da « alçada » de organizações de caracter sub-regional, comunitario ou continental. Assim, tendo em conta que, em maio prôximo se debatera no Conselho de Segurança das Nações Unidas a crise politica na Guiné-Bissau, este mês não podera deixar os guineenses defensores da paz e da legalidade democratica indeferentes ao que se podera projectar e ser decidido nesse forum importante das NU.

Entre as medidas mais importantes que deverão ser tomadas nessa reunião, vislumbra-se a orientação para a assinatura de um Pacto de Regime, o estabelecimento de um calendario eleitoral exequivel até o fim deste ano, a criação de um governo inclusivo e tecnocrata e o favorecimento da realização prioritaria de eleições gerais impreterivelmente antes do fim de 2013. Nesse contexto de conclusão da transição, às autoridades de facto, seriam incumbidas certas tarefas, ao que se parece residuais de seguimento institucional, porquanto a hipotese das NU assumirem a liderança do processo eleitoral, é uma probabilidade fortemente equacionada e altamente recomendavel pelas instâncias internacionais tendo em vista evitar as desconfianças e contestações que « motivaram » as derrapagens violentas e anti-democraticas verificadas nas ultimas eleições.

A possibilidade da assumpção técnica plena pelas NU do processo eleitoral à semelhança de Timor-Leste, é um factor que esta a ser devidamente equacionada, porquanto segundo as fontes onusinas e também da União Africana, as querelas e divergências que têm inquinado a estructura nacional encarregada das eleições (CNE), não pressagiam que ela seja boa solução para o momento actual que atravessa a Guiné-Bissau. Neste contexto, ao Governo Legitimo deposto pelo golpe de estado de 12 de abril, embora no exilio, podera ter uma palavra a dizer, caso saiba posicionar-se no novo contexto de solução que se esta a desenhar, mais ainda sendo implicitamente reconhecido pelas instâncias supranacionais de que  a a solução imposta por parte da CEDEAO a crise guineense foi um autentico fiasco.

Fernando T.

Politologo

via Ditadura do Consenso.

Guiné-Bissau: Guineenses fazem balanço negativo um ano após golpe de Estado – Expresso das Ilhas

Carlitos Fafé vende jornais há mais de 20 anos pelas ruas de Bissau mas nunca teve um ano “tão fraco” como os 12 meses que se passaram desde o golpe de Estado de 12 de abril de 2012.

Carlitos anda de bicicleta na distribuição de sete títulos de jornais (do estatal aos privados) mas, contou à Agência Lusa, “o negócio tem sido tão fraco” que às vezes nem chega a negociar 200 jornais por dia.

“A situação do país está cada vez mais difícil. O país vai mal”, afirma Carlitos, no meio de uma tentativa de vender um dos jornais a um cidadão estrangeiro no mercado central de Bissau.

“Dantes os estrangeiros, meus clientes, por exemplo compravam-me de uma assentada 4,5,6 jornais, mas hoje alguns compram um jornal e é já muita coisa”, enfatiza, acrescentando: “Há algumas pessoas, funcionários públicos, que fazem ‘vaquinha’ para comprar um jornal, que leem à vez”.

Um ano após o golpe de Estado que depôs, a 12 de abril de 2012, o poder legítimo, Cadidjatu Baldé fala também das dificuldades que vai tendo “desde a entrada em função da transição” para vender todos os dias a banana e o amendoim pelas ruas de Bissau.

“Antes da ‘transição’ eu vendia muito. Havia muito dinheiro e tinha muitos clientes que compravam as minhas coisas rapidamente, agora não há nada. As pessoas estão sem dinheiro e nós não conseguimos vender nada”, explica à Lusa.

Cadidjatu diz que não percebe muito bem da política, mas ainda assim acha que “a transição não está a conseguir nada”.

À conversa com a jovem no largo da Baiana (centro de Bissau) junta-se o taxista Umaru Ly, que afirma: “Sendo jovem, não devia estar a conduzir um táxi, devia estar era a estudar, mas não posso, porque não há saída. O golpe de Estado veio trazer mais atraso, sobretudo para nós jovens”.

“Mas posso garantir que há aqueles que saíram a ganhar com este golpe”, defende, quando arranca para mais uma corrida, que diz ser cada vez mais “para queimar o gasóleo”.

Como jornalista, José Augusto Mendonça tem informações que lhe dão esperança no futuro desde que haja “vontade política” dos guineenses. Ainda assim, o jornalista da ANG (Agência Noticiosa da Guiné, estatal) mostra-se triste com a realidade volvidos 12 meses desde o golpe de Estado militar.

“Infelizmente, é com muita mágoa que estou a constatar as coisas. Infelizmente não estou a ver nada como sinais que indiquem que as coisas estão a evoluir pela positiva. Estamos estagnados, onde estamos, durante 12 meses que já se passaram depois do golpe”, observa José Augusto Mendonça.

“Mas, por aquilo que se está a agendar como próximos passos, acredito que as coisas poderão evoluir, mas deve ser acompanhado de muita vontade política dos atores internos do país”, acrescenta.

Quando questionado sobre em que setor se sente mais a estagnação de que fala, Mendonça aponta a situação económica do país. “É na parte económica porque isso toca muito com o dia-a-dia da população. Antes (do golpe de Estado) a Guiné-Bissau estava na cauda do desenvolvimento humano, agora com esse bloqueio não sei se já não ultrapassámos essa escala”, defende Augusto Mendonça.

Com o golpe de Estado de 12 de abril de 2012, grande parte da comunidade internacional cortou todos os apoios e cooperação com as novas autoridades que gerem o período de transição entretanto instituído.

quarta, 10 abril 2013 10:1

Escrito por  Fonte: Agência Lusa/Expresso das Ilhas

via Guiné-Bissau: Guineenses fazem balanço negativo um ano após golpe de Estado – Expresso das Ilhas.

Ditadura do Consenso: CARLOS LOPES: Um blog para seguir com atenção

Caras/os amigas/os, chegou o BLOG do nosso conterrâneo e alto funcionário das Nações Unidas, Carlos Lopes. Recomendo, e agradeço que todos partilhem.

Podem seguir o Dr. Carlos Lopes de várias maneiras:

Blog http://www.uneca.org/es-blog (em francês http://www.uneca.org/fr/es-blog)

Twitter @ECA_Lopes

Facebook LopesInsights

Flickr Carlos Lopes ECA

Obrigado. AAS

via Ditadura do Consenso: CARLOS LOPES: Um blog para seguir com atenção.

Ditadura do Consenso: A comunidade internacional e a Guiné-Bissau

Não devemos ter ilusão quanto ao papel da comunidade internacional na Guiné-Bissau. Quem é a comunidade internacional? O termo designa, de maneira imprecisa, um conjunto de Estados e as suas organizações internacionais e ONG`s influentes na matéria de relações internacionais. Isso quer dizer que é uma noção aproximativa, constituída de actores diferentes, em função dos temas, dos interesses e dos países em causa.

No caso da Guiné-Bissau, a comunidade internacional é constituída por Estados-Unidos da América, França, Brasil, Portugal, Nigéria, Angola, ONU, União Europeia, União Africana, CEDEAO e CPLP. A comunidade internacional só pode ajudar. Somos nós, os guineenses, que devemos arrumar a casa, fazendo o nosso trabalho interno para que do apoio do exterior surjam efeitos positivos.

Como arrumar a Guiné? Para isso é preciso reinventar o futuro? Como reinventar o futuro? Fazendo uma introspecção dos nossos problemas, definindo as responsabilidades de cada um dos actores da vida pública, melhorando o sistema organizacional do poder político e sustentando a esperança através de uma transformação económica inclusiva na Guiné.

Os maiores partidos políticos da Guiné, já demostraram os seus limites: guerras intestinas reflectiram-se a nível nacional, – golpes e contra golpes, crimes de sangue, destruturação da economia e da sociedade, incapacidade de criar um consenso à volta da coisa pública e disputa do monopólio dos instrumentos coercitivos do Estado, as forças de defesa e segurança, tornando a Guiné e o seu povo refém das contradições dos que animam a vida política.

O próprio modelo político e constitucional de organização do poder político, o semi- presidencialismo, não corresponde a sociologia política e cultural da percepção e do exercício do poder na Guiné. Tivemos sempre confusão entre o Presidente da República e o Primeiro-ministro, mesmo sendo sempre do mesmo partido político. Isso implica que os partidos políticos e os seus dirigentes devem também ser reformados para que se possa definir claramente um modelo societal abrangente de toda a diversidade da sociedade guineense. E só com um modelo societal, aceite por todos que têm uma força moral baseada num novo contrato social, que a Justiça poderá funcionar e acabar com o surto de impunidade na Guiné.

Actores e modelo políticos relevam das vontades individuais e colectivas. Mas, para que essa vontade não se perca nos mares das necessidades humanas, é preciso criar uma dinâmica que os mantenha vivos, que dê esperança e que faça acreditar que hoje será menos pior do que ontem e que amanhã será melhor que hoje. Isso passa pela transformação económica da Guiné, através do crescimento económico inclusivo que dará emprego condigno às mulheres e aos homens na idade de trabalhar, para acabar com a pior doença do corpo social, a pobreza. Sem essa dinâmica económica nada mudará na Guiné, mesmo com o apoio da comunidade internacional.

Isso implica a escolha nas próximas eleições de pessoas competentes, de boa moralidade e que podem ser ouvidas no exterior para dar esperança ao povo, legitimando o poder que sairá das urnas com a voz dos que constituem a principal força política silenciosa na Guiné-Bissau desde as três ultimas eleições: os 45% dos abstencionistas que não se reconhecem nem nos actores actuais da política (partidos e indivíduos), e nem nos projectos de sociedade desses partidos. Assim sendo, a questão do perfil do futuro Presidente da República, do futuro Primeiro-ministro, deve estar desde já na mente de cada um de nós.

Podemos resumir este texto em uma frase: «Kim ku pudi manda pa tira Guiné na é situaçon?»

via Ditadura do Consenso: A comunidade internacional e a Guiné-Bissau.

Golpe de Estado fez regredir todos os indicadores – Analista político guineense | GBISSAU.com

Bissau (AngolaPress, 10 de Abril de 2013) –  O golpe de Estado de há um ano fez regredir todos os indicadores da Guiné-Bissau, incluindo o respeito pelos direitos humanos, dizem analistas ouvidos pela Lusa, um deles a defender mesmo uma “administração internacional” para salvar o país.

“Tem de haver uma administração internacional e tem de começar desde já, com a organização das eleições, tem de começar a intervir e com uma intervenção pró-activa”, defende o analista Rui Landim, a propósito do primeiro aniversário do golpe de Estado de 12 de Abril de 2012, que derrubou o poder legítimo.

Porque o país “piorou” em todos os domínios, defende o analista que seja a comunidade internacional a “intervir com mais afinco” e que seja o Conselho de Segurança das Nações Unidas a marcar a data das eleições e a ONU a apoiar depois “uma nova administração internacional, para se reconstituir um Estado que não existe”.

“Os ministros que tratem dos aspectos políticos, os aspectos técnicos e administrativos devem de ser decididos pela comunidade internacional. Que não seja permitido que qualquer Primeiro-ministro, qualquer ministro, nomeie parentes, filhos e tios”, diz Rui Landim, para quem “um Estado muito partidarizado enfraquece as instituições democráticas”.

Até agora, as nomeações familiares ou partidárias (mesmo antes do golpe) “destruíram as instituições”, afirma o analista, acrescentando: “há golpes de Estado militares mas há golpes de Estado que se fizeram durante muito tempo, golpes nas instituições, que são relegadas para segundo ou terceiro plano e são as vontades das pessoas que imperam”.

No entender de Rui Landim, “é sempre mau” uma rotura da ordem constitucional, embora por vezes seja “a última saída” (exemplo do 25 de Abril em Portugal). Mas no caso da Guiné-Bissau, o último golpe militar, e outros anteriores, desde a guerra de 1998, só têm feito regredir o país.

Não foi diferente o de 12 de Abril: “todos os indicadores macroeconómicos e sociais mostram que há uma grande regressão”, para já não falar “do respeito pelos direitos humanos”, que na Guiné-Bissau “caiu grandemente”, avisa Rui Landim.

Fodé Mané, antigo director da Faculdade de Direito de Bissau, explica de outra forma uma ideia quase idêntica. Antes do golpe de há um ano já havia “turbulência política” e havia manifestações constantes contra má governação e mau funcionamento da Justiça, lembra.

“Quando houve o golpe de Estado em que saíram vencedores os que contestavam o regime esperava-se que fizessem algo diferente. Será que temos melhor Justiça? Creio que não”, diz o analista, considerando que ao contrário houve reformas que pararam e o Ministério Público foi politizado, pelo que houve nessa matéria “um falhanço total”.

“O golpe tinha como um dos pressupostos que havia perseguições e instabilidade. Não deixou de haver mortes depois do golpe e continuamos com restrições à liberdade, como a de informação, de expressão, de manifestação e mesmo até de circulação”, acusa Fodé Mané, que critica ainda não haver um calendário para as eleições nem um processo de reconciliação nacional, algo que estava a ser preparado antes do golpe de há um ano.

Neste último ano, sintetiza Fodé Mané, “o país não se encontrou” e houve “retrocesso” em todos os indicadores, das exportações à produtividade. E aumentaram as tensões entre as várias instituições, como o Parlamento, o Governo ou a Presidência, a que se juntou uma diplomacia débil, de confronto, que redundou “num fracasso total”.

E no poder estão as pessoas que se manifestaram semanalmente no passado e que hoje proíbem as marchas e exercem censura na comunicação social estatal, acrescenta.

O analista defende que se realizem eleições ainda este ano, como também Rui Landim, com ambos a criticar que não haja já uma agenda com datas marcadas. Segundo Rui Landim, não há uma perspectiva de esperança para a Guiné-Bissau e o país vive sim “num clima nebuloso”.

via Golpe de Estado fez regredir todos os indicadores – Analista político guineense | GBISSAU.com.

Jorge Heitor: Guiné-Bissau, um ano depois do golpe: mais violações e tráfico de drogas | Lusomonitor

Jorge Heitor: Guiné-Bissau, um ano depois do golpe: mais violações e tráfico de drogas

por LUSOMONITOR em Apr 2, 2013 • 10:50

Completando-se no próximo dia 12 de Abril um ano sobre o golpe de estado que derrubou o regime existente na Guiné-Bissau, a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental CEDEAO, a União Africana, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa CPLP, a União Europeia e as Nações Unidas deram conta das violações dos direitos humanos que têm estado a ser cometidas e de um aumento substancial do tráfico de drogas.Uma missão conjunta daquelas entidades esteve no pequeno país e considerou incontestável que os problemas da impunidade, das violações dos direitos humanos e da constante intromissão das Forças Armadas na vida política existem desde há muito tempo.Por outro lado, notou que as tropas oriundas da guerrilha que lutou pela independência não conseguiram transformar-se em Forças Armadas ao serviço do Estado, antes procurando ter sempre um papel importante na gestão do mesmo.Além disso, notou que os políticos costumam instrumentalizar os militares, encorajando-os por vezes a derrubarem os seus adversários, numa terrível promiscuidade entre dois sectores da sociedade que deveriam ter papéis bem distintos um do outro.O orçamento total apresentado agora pelo Governo de Transição para garantir a organização de eleições credíveis é de 32 milhões de euros; mas esse dinheiro só aparecerá se a comunidade internacional estiver disposta a ajudar um país que não se tem mostrado minimamente digno disso.Hoje, como há sete ou oito anos, continua a falar-se da necessidade de reformas nos sectores da defesa, da segurança, da justiça e da administração pública, combatendo-se a impunidade e o crime organizado.Tudo isto é muito bonito de se dizer, mas dificílimo de concretizar, num território onde não existe verdadeira consciência nacional nem sequer um quarto da população que se consiga expressar fluentemente na língua oficial, o português.As eleições, sejam elas legislativas ou presidenciais, acabam sempre por se transformar numa panaceia para problemas que têm décadas de existência, pois que radicam no facto de, em 1950, 1960 ou 1970, as populações fulas, mandingas, balantas, manjacas e outras não terem sido devidamente preparadas para se unificarem numa só Nação guineense.A doutrina de Amílcar Cabral pode ter sido muito interessante, do ponto de vista teórico, mas não é o simples pensamento de um só homem que em 15 ou 20 anos faz um país, com pés para andar. Tal como uma só andorinha não faz a Primavera.Enquanto 25 ou 30 por cento dos guineenses, pelo menos, não estiverem devidamente alfabetizados, escrevendo e lendo como deve de ser, completando um sólido ensino secundário, será muito difícil de acreditar que termine a violência a que até hoje temos assistido.A Guiné-Bissau continua a ser um projecto adiado, desde que em 1973 o PAIGC proclamou de forma unilateral e precoce a sua independência. Jorge Heitor, que na adolescência tirou um Curso de Estudos Ultramarinos, trabalhou durante 25 anos em agência noticiosa e depois 21 no jornal PÚBLICO, tendo passado alguns períodos da sua vida em Moçambique, na Guiné-Bissau e em Angola. Também fez reportagens em Cabo Verde, em São Tomé e Príncipe, na África do Sul, na Zâmbia, na Nigéria e em Marrocos. Actualmente é colaborador da revista comboniana Além-Mar e da revista moçambicana Prestígio.

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