Carlos Schwarz: Filho da lusofonia, pés bem assentes na Guiné | Lusomonitor

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Carlos Schwarz: Filho da lusofonia, pés bem assentes na Guiné

por ANA CRISTINA VAZ em Mar 17, 2014 • 12:19Sem Comentários

Foi num ambiente pesaroso e recatado, que admiradores, amigos e familiares de Carlos Augusto Schwarz da Silva se encontrarem no passado dia 7 de março na Fundação Mário Soares. Na noite fria de Lisboa, onde faleceu a 18 de fevereiro, evocou-se “Pepito”, como ficou conhecido na Guiné-Bissau, um filho da lusofonia com origens em Cabo Verde, mulato apaixonado, e sempre preocupado, com a terra e gentes guineenses.
O seu percurso de vida, pensamento e obra, foram sendo narrados por amigos de longa data. Partilharam, entre lágrimas, risos e pesar, algumas das facetas pessoais e profissionais deste notável ativista da liberdade.
“Tony” Delgado, amigo desde o Liceu Honório Barreto, resgatou memórias dos saudosos anos 1960. Retratos de uma mocidade marcada por cumplicidades, travessuras e uma destacada generosidade no trato com colegas, a quem distribuía “filhoses” pelos corredores do liceu.
Do companheiro, guarda descobertas de novos horizontes, para lá da clausura colonial, que só em sua casa teria tido acesso, através da literatura e músicas dessa época. Nessa altura já se evidenciavam contornos de um ativismo anticolonial, herdados do pai, Artur Augusto da Silva, um advogado cabo-verdiano que foi preso pela PIDE por defender nacionalistas da independência da Guiné.
Estes contornos viriam a ganhar maior expressão em Lisboa, enquanto parte do movimento estudantil de contestação à ditadura, durante o tempo que estudava Engenharia Agrónoma no Instituto Superior de Agronomia da Universidade de Lisboa. É neste contexto que Eduardo Costa Dias suspeita tê-lo conhecido, em 1969, numa Assembleia Geral da LIVRELCO, uma cooperativa livreira universitária.
“O resultado desta assembleia geral assinalou uma viragem da relação de forças entre as várias tendências políticas do movimento associativo estudantil em Lisboa. Carlos Schwarz será a partir de 1971 um dos principais dirigentes estudantis da academia de Lisboa”, afirma.
Este antropólogo recorda-se do amigo como um homem de leituras e de decisões amadurecidas que “pensava bem, escrevia, como o pai – muitíssimo bem, falava bem e, sobretudo, tinha frequentemente grandes feelings, boas e simples ideias, o que fazia dele um líder natural, carismático e culto” e não um simples “camarada funcionário”.
Ora engolidas num silêncio doloroso, ora aplacadas por melódicas cordas do Kora do músico guineense Galissa, as memórias frescas e bem-humoradas de Pepito fizeram-se de discursos, improvisos, excertos de emails, relatórios e referências bibliográficas, numa vontade de reconstituir os bocados de um homem que nos toca pela sua força de vontade e dedicação na reconstrução de um país de “paz e progresso”, guiados pelas aspirações de nação de Amílcar Cabral.
Os museus “Memória de Guiledje”, e o “Memorial da Escravatura e Tráfico Negreiro de Cacheu” que fundou através da organização AD, Ação para o Desenvolvimento, foram o resgatar desses ideais, que Schwarz nunca desistiu de lembrar, mesmo nos momentos de desesperanças em que a Guiné-Bissau tem mergulhado nos últimos 15 anos.
Perante um país prostrado a viver na “maior cisão social alguma vez vista”, como o próprio descreveu no relatório de atividades da AD (2010-2012), o longo caminho só se poderá fazer através de “ações concretas que façam as pessoas crer em novos e velhos, valores éticos, em fatores de mobilização como a cultura, a história e de líderes que tenham o consenso de todos, como Amílcar Cabral”.
A situação da deriva política atual justificava com a “perda de valores e do conhecimento da história passada e o abandono da diversidade cultural”. “As nossas sucessivas lideranças esqueceram-se que o elemento essencial é o homem, e que só ele tem a capacidade para fazer progredir a sociedade e modernizá-la. A essência do ser humano é a cultura e não a economia, como muitos e em diversas latitudes, insistem em porfiar, chegando ao ponto de “castigar” os homens em nome da viabilidade (?) económica de um país”. Afirma categoricamente com aquela força que sempre nos acostumou.
Mobilizou a força de todos os protagonistas da guerra, “população local, antigos combatentes guineenses e de ex-militares portugueses, na construção do Museu Guiledje – o único espaço museológico na Guiné-Bissau, sobre a luta de libertação nacional para a independência, que associa a memória dos cinco povos envolvidos nesse momento histórico: bissau-guineense, caboverdiano, português, guineense e cubano”.
Foram 40 anos dedicados ao recomeço de uma nação que nunca parou de tentar erguer desde1975, ano em que regressou ao país de todas as esperanças, com a sua mulher, Isabel Levy Ribeiro e a primeira filha Cristina, comprometidos a fazer crescer a pátria em que nasceu em 1949.
Eduardo Costa Dias sintetiza metodicamente o percurso de Carlos Schwarz em três linhas mestras que chama de “causas gostosas”, abraçadas pelo ativista desde o seu retorno à Guiné-Bissau: em primeiro lugar, sua preocupação com a questão da segurança alimentar, ideia fundadora do DEPA, Departamento de Experimentação e Pesquisa Agrícola da Guiné-Bissau, de caráter público e com vocação para o aumento da produção do alimento base dos guineenses, o arroz, e a diversificação da produção agrícola.
Numa etapa seguinte, a soberania alimentar, “eixo fundador da intervenção da AD, ideia expressa nos combates pela defesa do direito inquestionável dos povos e das nações decidirem sobre as suas práticas agrícolas, pela agricultura de proximidade, pela proteção e recuperação das condições naturais de produção e pela estabilização dos direitos de acesso à terra por parte dos agricultores”.
E, por fim, a evocação da escravatura, a mensagem de que “a Nação precisa de incorporar, para além dos traços únicos e distintivos dos povos e das épocas, os traços que afetando, mesmo longinquamente, a generalidade dos cidadãos, venham de trás”. Não só na Guiné-Bissau, mas em boa parte dos “países do sul”, subjugados às agendas do “norte”, a questão ainda é atual.
“Sem conhecer e estudar o passado, a sociedade (guineense) corre o risco de se perder no caminho e voltar a cometer os mesmos erros de há 400 anos. A história da escravatura e do tráfico negreiro mostra-nos que os exploradores estrangeiros de recursos humanos locais, só obtiveram sucesso porque tiveram a conivência e apoio de certos nacionais.
Hoje, a exploração dos recursos humanos deu lugar à exploração dos recursos naturais e económicos e, sem o compadrio de quadros nacionais, ela não seria possível ou não teria atingido o escândalo a que hoje se assiste”, disse.
Um alerta que ultrapassa as fronteiras da Guiné-Bissau ecoando em todo o espaço lusófono.

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