Luta ca Caba inda: Nos 40 anos da morte de Amílcar Cabral há uma nova luta para ver – PÚBLICO

É parte de um projecto e de uma missão da artista Filipa César para salvar os arquivos da Guiné-Bissau. Luta ca Caba inda (A Luta ainda Não Acabou) pode ser visto hoje na Zé dos Bois em Lisboa

Vídeo: “O Regresso de Amilcar Cabral”, 1976 (cortesia @ INCA Guiné-Bissau, José Columba, Josefina Crato, Flora Gomes, Sana Na N’Hada)

http://www.publico.pt/n1581075

Áudio: Miriam Makeba e José Carlos Schwarz cantam ao P.A.I.G.C e a Luís Cabral; Discurso de Amílcar Cabral, em crioulo, aos professores (cortesia: © INCA Guiné-Bissau, José Cobumba, Josefina Crato, Flora Gomes, Sana na N’Hada)

São filmes raros ou imagens em bruto – alguns nunca vistos, outros esquecidos. Foram filmados antes ou logo a seguir à independência da Guiné-Bissau, há 40 anos, pelos realizadores guineenses Flora Gomes, Sana na N”Hada, Josefina Crato e José Cobumba.

São imagens captadas por guineenses, de importantes momentos da luta de libertação, liderada pelo fundador do PAIGC, Amílcar Cabral, e mostram que o cinema da Guiné-Bissau nasce antes do nascimento da nação em Setembro de 1973 e antes do primeiro cinema de ficção nacional. Muito antes de Flora Gomes e Sana na N’Hada começarem a contar histórias, já filmavam a guerra de libertação.

O ideal de Cabral para a independência da Guiné e de Cabo Verde procurava também uma independência do gesto e do olhar, a liberdade de construir uma memória própria, com a produção de imagens e filmes por realizadores nacionais e não apenas estrangeiros. É essa a sua ideia visionária quando decide enviar os quatro jovens ligados ao PAIGC para Cuba para receberem formação no Instituto de Cinema. E será esse o gesto fundador do cinema guineense.

Esse gesto é-lhe agora devolvido em forma de homenagem comLuta ca Caba inda (A Luta ainda Não Acabou, do título de um filme inacabado), uma apresentação performativa da artista plástica Filipa César (n. 1975) e do realizador Sana na N’Hada (n. 1950) hoje, às 18h, na Zé dos Bois, em Lisboa, no quadro dos eventos que marcam os 40 anos do assassinato de Amílcar Cabral a 20 de Janeiro de 1973. (Segue-se um jantar guineense e um concerto de homenagem a Amílcar Cabral no B.leza.)

Esta apresentação (de duas horas de filmes e imagens em bruto divididas em oito temas ou momentos) representa apenas uma parte de um projecto mais amplo e ambicioso de Filipa César, que tem uma missão: salvar as imagens da ruína, devolvê-las ao Instituto Nacional do Cinema e do Audiovisual da Guiné-Bissau (INCA) e mostrá-las dentro e fora da Guiné.

Originais e cópias

O conjunto das imagens deste projecto pertence aos arquivos da Guiné-Bissau, onde foram deixadas ao abandono desde o fim dos anos 1990. Entre as que vão ser visionadas hoje, há dois originais, sendo o resto cópias. Cópias, nalguns casos, nunca vistas. Já não podem ser recuperadas, mas foram digitalizadas e assim fixadas no seu estado actual, como se da “fotografia de uma ruína” se tratasse, descreve Filipa César.

O trabalho foi feito em Berlim. Por sorte ou por magia, aí chegaram pela mão da artista que viajou para Bissau à descoberta de um cinema documental e militante esquecido de quase todos. Podia ter sido demasiado tarde. Quando chegou há um ano a Bissau para fazer o levantamento dos arquivos, entre o material que encontrou, metade estava destruída e a outra – 40 horas – pôde ser digitalizada no estado em que foi encontrada.

“É um achado arqueológico, mas em que as pessoas que o fizeram ainda estão vivas e quase podem completar essa ruína. O importante, para nós, era que o material fosse apresentado desta forma, em bruto, como foi encontrado, e pô-lo a nu, olhar para ele e ver o que representa”, explica ao PÚBLICO.

São filmes que permitem contar uma nova história do cinema da Guiné-Bissau. “Muito do cinema africano nasceu como cinema militante, ligado aos movimentos de libertação. A Guiné-Bissau não foi excepção [ao contrário do que se pensava], mas esta parte do cinema militante não estava documentada. Não havia uma história sobre ele. Foi isso que me que levou a tentar salvar estes filmes”, explica Filipa César.

E são filmes que resultam de encontros entre os jovens realizadores guineenses e grandes nomes do cinema dos países amigos da luta – como Santiago Alvarez, em Cuba, Lennart Malmert e Ingela Romare, da Suécia, e o cineasta francês Chris Marker (1921-2012), que em 1979 esteve na Guiné-Bissau, onde recolheu imagens para o seu filme Sans Soleil (1983).

Este é um dos muitos pontos de interesse para Filipa César, que, como outros artistas, encontra em Chris Marker uma influência vital. A artista também nutre um interesse especial pela figura e o pensamento de Amílcar Cabral e pela “luta de libertação na Guiné-Bissau, de onde saíram os militares que vieram fazer o 25 de Abril”. Esses interesses conjugam-se com a ligação pessoal e familiar à Guiné, onde o seu pai esteve, e com o objectivo que tinha de ir à origem do cinema guineense.

No ano passado, a artista levou as bobinas de Bissau para Berlim, onde vive, e teve o apoio da Cinemateca Arsenal, digitalizou as imagens com a ajuda de uma máquina obsoleta (só assim se garantiria que as imagens quase desfeitas não desfizessem a máquina) e trouxe-as em 15 discos dentro de uma caixa à prova de água esta semana para Lisboa.

Reconstituição da história

Além dos filmes de guineenses como Guiné-Bissau, 6 Anos Depois(1980) e outros, Filipa César encontrou filmes estrangeiros de países aliados – Cuba, União Soviética, Argélia, China e Suécia, como O Nascimento de Uma Nação (1973), de Lennart Malmer e Ingela Romare.

As imagens que serão visionadas esta quinta-feira reconstituem alguns momentos marcantes do nascimento de um país: a proclamação do Estado nas zonas libertadas a 24 de Setembro de 1973, em que importantes figuras do PAIGC discursam e um deputado (eleito para a Assembleia Constituinte depois do II congresso do partido) fala em nome do povo e onde uma cópia impressa da Constituição é entregue aos presentes; a visita dos embaixadores estrangeiros em reconhecimento da nova nação; o 20.º aniversário do PAIGC no palácio presidencial em Bissau.

Os filmes ou imagens filmadas depois da morte de Cabral mostram que o herói da luta continua presente: na evocação das ideias e da missão, na iconografia exposta em reuniões magnas do partido em tempo de guerra nas zonas libertadas e, mais tarde, em cerimónias comemorativas da independência ou do PAIGC; ou ainda nas notas de 500 pesos guineenses, como se vê num filme que regista os dias loucos em que as pessoas acorreram ao banco para trocar os escudos por pesos, já depois da saída do Exército português em 1974. De Bissau saíam helicópteros com destino às aldeias onde as pessoas tinham guardado os escudos portugueses para trocar pela nova moeda, conta Sana na N’Hada.

O ciclo dos filmes mostrados hoje fecha-se com O Regresso de Amílcar Cabral, que reconstitui as cerimónias fúnebres em Bissau depois de trasladado o seu corpo de Conacri, onde Cabral foi assassinado na noite de 20 de Janeiro de 1973.

É um dos filmes raros que podem agora ser vistos em Lisboa. Raro porque proibido na Guiné-Bissau depois do derrube de Luís Cabral por Nino Vieira em 1980. Foi então considerado um instrumento de propaganda àquele que tinha sido o Presidente da Guiné-Bissau desde a independência e era irmão de Amílcar Cabral.

Apenas um filme do conjunto visionado esta quinta-feira mostra Amílcar Cabral em vida. É um inédito e original (como o filme do 20.º aniversário do PAIGC) de imagens em bruto da Semana da Informação, uma grande exposição que o líder do PAIGC organizou para retratar o estado da luta. O partido já conquistara então dois terços do território e Cabral preparava a proclamação do Estado na Madina do Boé, mas viria a ser assassinado antes disso. A exposição é apresentada no Palácio do Povo em Conacri, onde estava baseado o movimento.

Pode ser entendido como o filme que marca o nascimento do cinema da Guiné-Bissau, por ser o primeiro feito por guineenses. Entre eles, Sana na N’Hada, que apresenta e comenta as imagens (sem som) esta noite – não apenas porque é um dos seus autores, mas porque a sua vida se mistura com a da luta.

“Quando o Sana em público olha as imagens e dá um contexto, as suas informações são completamente genuínas, de alguém que esteve ali, naquele momento, que conhece o cheiro da terra e da guerra e tem a experiência daquele povo”, acrescenta Filipa César. “É fundamental criar um espaço para esta voz. Eu aqui tenho mais um papel de curador, ao criar um dispositivo para que as coisas aconteçam [e para que outra forma de aceder às imagens seja possível].”

A Cuba do cinema guineense

Com 13 anos, Sana na N’Hada foi apanhado pelos combates, fugiu para o mato de onde já não podia voltar sem correr riscos. Por saber ler e escrever, foi ensinar os que não sabiam depois do Congresso de Cassacá, em 1964, quando o PAIGC decide criar escolas e hospitais para a população das zonas libertadas. Tinha então 15 anos. Numa visita de Amílcar Cabral à Frente Norte, onde Sana na N’Hada estava destacado já como enfermeiro num hospital de campanha, o jovem é escolhido para se juntar ao grupo que vai “ser educado em cinema” em Cuba – com Flora Gomes, Josefina Crato e José Bolama Cobumba.

Como um prólogo a anteceder a verdadeira história do cinema guineense, as primeiras imagens do visionamento desta quinta-feira mostram os desse grupo numa acção de trabalho rural voluntário em Cuba em 1969, ao lado de outros jovens que se tornaram importantes figuras do PAIGC.

São as únicas imagens desta apresentação não filmadas por guineenses, mas pela equipa do realizador cubano Santiago Alvarez (1919-1998), que fundou o Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográficos (ICAIC) pouco depois da revolução e onde os quatro jovens guineenses foram recebidos.

“É muito bonito, porque se vêem os quatro juntos em Cuba”, diz Filipa César. É como o início de tudo.

Nos 40 anos da morte de Amílcar Cabral há uma nova luta para ver – PÚBLICO.

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