Os mesmos guineenses, metade do dinheiro – Notícias – Sapo Notícias

Bissau, 12 jul (Lusa) – Armando Gago tem um bar na principal avenida de Bissau. Três meses após o último golpe de Estado no país tem a mesma conta de clientes mas a faturação desceu para metade.

Português, 69 anos, os últimos 23 na Guiné-Bissau, Armando vive ao lado do “Contentor Amarelo” como é conhecido o bar que tem na avenida dos Combatentes da Liberdade da Pátria.

A avenida é a única saída e entrada em Bissau e onde fica o principal mercado do país (Bandim) e se concentra a maior parte do comércio. Viver nela é assistir “de camarote” às evoluções económicas, sociais e políticas.

Quando há notícias de movimentações militares a avenida fica deserta de um momento para o outro, quando tudo funciona normalmente uma viagem até ao centro pode demorar quase uma hora, tal a intensidade do trânsito.

O “Armando da Fagoral”, como é mais conhecido, tem um bar para capacidade para 150 pessoas, que em dias de jogos de futebol continua a encher como antes do golpe. Mas não tem ilusões: “Antes com metade das mesas fazia o mesmo dinheiro.”

“Quando joga Portugal, ou quando joga o Real Madrid, fica tudo cheio. Antes fazia 600 euros, agora faço 350. O pessoal comparece à mesma, só que a capacidade de compra deles é muito menor”, conta à Lusa.

Três meses após o golpe de Estado, diz Armando Gago mas constata também a Lusa, a vida decorre aparentemente como antes de 12 de abril. O trânsito na avenida é intenso durante a dia e as discotecas enchem-se de novo durante a noite. Aos fins de semana uma das principais, também na avenida, “despeja” gente e carros à porta e das três faixas de rodagem circula-se, a custo, numa.

Mas Bissau, onde tudo se passa (no interior praticamente não se sentem os golpes de estado), não voltou ao que era antes de 12 de abril. Há agora menos energia elétrica, há mais cortes de água também (pelo menos no centro da cidade), há menos comércio, há menos gente a gastar dinheiro.

Marcelo Marques, português há quatro anos a viver na Guiné-Bissau, explora uma pista de carros de choque, também ela montada ao lado da avenida. Há menos de 24 horas informou o governo e o Presidente interinos resultantes do golpe militar de 12 de abril que ia desmantelar a estrutura e de que ia deixar o país.

A pista já era deficitária antes do golpe mas depois de abril “a situação agravou-se” e agora “as crianças e os jovens saem menos”, justifica.

Outras “vítimas” do golpe são os principais restaurantes de Bissau, frequentados habitualmente por estrangeiros. O não reconhecimento das autoridades que hoje governam a Guiné-Bissau levou muitas instituições estrangeiras a fechar portas ou a reduzir pessoal e também muitos projetos de cooperação foram abruptamente encerrados. Também projetos ou ideias de investimento estrangeiro foram adiados.

Três meses após o golpe estão mais vazios os voos da TAP, a única transportadora aérea que faz a ligação com a Europa e das poucas que voam para Bissau. A empresa suprimiu os voos de meio da semana e em relação aos restantes também são frequentes mudanças e cancelamentos.

Nos últimos dias não houve batatas em Bissau mas Armando diz que a falta cíclica de produtos é normal. Em termos gerais, nos mercados há hoje o que havia em abril, ainda que se note um aumento de preços nalguns produtos, nomeadamente no peixe.

No último sábado, apesar da chuva intensa, Armando tinha o bar cheio, como tinha nas festas de outros sábados antes do golpe.

Mas vive-se “mais mal”, reconhece quem vive de caras para a artéria que alimenta o centro da capital e onde tudo se passa, e tudo passa.

Quem não vive, não trabalha ou não passa pela avenida também não podia assistir, há um dia, ao inusitado desfile do dirigente da oposição, Kumba Ialá, numa carrinha de caixa aberta, de pé, acenando às pessoas e de dedo indicador em riste.

FP.

Lusa/fim

*** Fernando Peixeiro, da Agência Lusa ***

via Os mesmos guineenses, metade do dinheiro – Notícias – Sapo Notícias.

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